Quando tinha a tua idade.

Dizem que tinhas 3 anos. Eu seria um pouco mais novo que tu, portanto.

Os meus pais deixaram-me com os meus avôs quando atravessaram os Pirinéus a salto, como se dizia na altura. Bem sei que os teus fugiam do horror e os meus apenas da miséria. Bem sei que os Pirinéus não eram tão perigosos como o Mediterrâneo  tem revelado ser nos últimos tempos.

Ao fim de alguns meses a minha mãe não aguentou as saudades e voltou a arriscar tudo para nos vir buscar, a mim e às minhas irmãs. Acredito portanto que os perigos da viagem, embora sendo muitos, não fossem comparáveis aos que enfrentaste tu e a tua família.

Fugimos para França em 1971 ou 1972, pouco antes de deixar de ser preciso de fugir de  Portugal. Não éramos refugiados políticos, apenas procurávamos uma vida melhor. Não sei ser éramos desejados em  França, mas sei que fomos consentidos e que foi lá que os meus pais conseguiram uma vida melhor.

Eu era um menino, como tu.

Tu, infelizmente, nunca saberás o que é ser um homem. Roubaram-te o direito de crescer.

Todos sabemos que morreu um menino, nunca saberemos quem seria o Homem que o mundo perdeu.

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