Somos todos franceses

Aos poucos vejo as fotos de muitos dos meus amigos ficarem tricolores, como a minha.

Por  cortesia do Facebook, bastam dois cliques para ficarmos com as cores da bandeira da França e fazêmo-lo porque é fácil, porque é bonito mas também, e sobretudo, acredito, porque queremos dizer aos nossos amigos, aos nossos familiares que por lá vivem que estamos com eles, que sentimos a sua dor. Antes mesmo de começar a onda da bandeira na foto de perfil muitos dos meus amigos, e eu próprio, tinhamos alterado a foto de capa e a de perfil.

Tenho também  amigas, de quem respeito a opinião, que nos lembram que no dia anterior tinha havido um atentado em Beirute, com cerca de cinquenta mortos, ou há pouco tempo um avião russo, com mais de 200 passageiros a bordo, tinha sido vítima de um atentado. O ponto de vista destas amigas, que respeito, é que devemos “chorar” todos os mortos por igual, que ser em Paris ou em Beirute não faz diferença nenhuma.

Quem seguir o ninguém lê sabe que que não sou indiferente ás notícias que nos chegam sempre que a barbárie se manifesta em qualquer parte do mundo. Mas discordo que devemos “chorar” todos com a mesma intensidade, como argumentam, porque todos somos humanos. Talvez elas consigam, eu não!

Lembro-me como fiquei devastado quando, apenas com 57 anos, a minha mãe morreu. Para muitos tratava-se apenas de um ser humano.  Para mim era o melhor ser humano que já pisou o planeta e, por isso, a minha reacção não podia ser a mesma da morte de muitas outras pessoas… e ainda bem porque não resistiria.

Concordo que questionem a dualidade de critérios da comunicação social. Concordo que estranhem que as televisões passem em nota de rodapé outros atos igualmente (ou mais ainda) cruéis e que façam emissões especiais sobre Paris. Concordem que critiquem a dualidade de critérios de quem ilumina monumentos por todo o mundo com as cor de França e não com outras cores. Mas  não  compreendo que estranhem que os nossos contactos no Facebook reajam de forma diferente ás mortes em Paris que ás mortes em Beirute ou num avião Russo.

Paris é a cidade da luz, onde vivem ainda muitos dos que nos anos 60 e 70 partiram de Portugal. Paris está a uma hora e meia de avião de Lisboa e muitos de nós já passeamos pelas suas avenidas. Quando alguma coisa acontece em Paris, pode ter envolvido portugueses e familiares nossos. Pode ter envolvido os cantores que cantam muitas das músicas de que gostamos e, por isso, desculpem, mas para mim não é a mesma coisa.

Não estranho que os meus amigos reajam de forma diferente aos atentados de Paris, não estranho que seja esta a bandeira de França que põe no perfil e não a do Líbano ou a da Rússia . Espero que, no Líbano ou na Rússia, muitos utilizadores de redes sociais sintam com a mesma intensidade que nós  sentimos as perdas dos “nossos” as perdas dos seus. Espero que o Facebook, ou a rede social que utilizem, lhes dé oportunidade de colocarem a bandeira na foto de perfil ou de se manifestarem de outra forma qualquer, e espero que o façam.

Gostei de ver esta onda gigante de bandeiras tricolores pelos meus amigos no Facebook, somos todos franceses, como já fomos outras coisas.

Vai passar, certamente, mas hoje, por favor, deixem-me ser francês!

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5 pensamentos sobre “Somos todos franceses

  1. Fui uma das pessoas que deixei entrever essa ideia de que não choramos da mesma forma as vidas humanas que se perdem por todo o mundo, mas não me excluo desse grupo grande que, como tu, chora mais e lamenta mais a perda e o sofrimento daqueles que estão próximos.
    As tragédias que acontecem perto de nós tocam-nos mais, obviamente, porque tememos pela segurança e pelas vidas de pessoas que nos são queridas, porque tememos pela nossa própria segurança, porque nos sentimos impotentes perante as ameaças reais ou hipotéticas.
    Ainda que não tenha alterado a minha foto de perfil no Facebook (e imagino que, por isso, seja alvo de críticas), não deixo de sentir uma grande, grande tristeza e de experimentar essa sensação de que vivemos num mundo suspenso por fios muito frágeis.

    Um abraço para ambos, João e CC.

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    1. Eu não critico quem não alterou a foto, nem quem tem opiniões diferentes das minhas Deep. Antes pelo contrários, gosto de as ler de refletir sobre elas… Não fosse França, não fosse Paris, e talvez eu escrevesse o mesmo. Não será preciso procurar muito aqui no arquivo para encontrar escritos sobre os refugiados ou sobre outros massacres. Mas o que defendo é que queiramos ou não nem todas as mortes são iguais. Seria bonito se fossem, mas não são. Sofri quando perdi a minha mãe como não sofri quando foi a mãe ou o pai dos meus amigos. Tocou-me mais em Paris, onde vivem sobrinhos e familiares meus, que em Beirute. Tenho a certeza que em Beirute outros chorarão mais os seus mortos que os de Paris e o que realmente deveríamos ter era informação imparcial, talvez até monumentos a iluminarem-se com os mesmos critérios… Quanto a nós, penso que ser em Paris, em Beirute ou em Lisboa fará sempre diferença!

      Beijinho, amiga 🙂

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  2. Eu sei, João, que tu não criticas quem não o fez. Aliás, tolerância e abertura de espírito são duas qualidades que admiro em ti, assim como essa capacidade de seres assertivo e frontal, sem seres agressivo.
    Respeito e compreendo perfeitamente as ideias que expões e, como tu, sei, por experiência, que as perdas nunca são vividas com a mesma intensidade de dor.

    Um beijinho, amigo, e votos de bom domingo. 🙂 (Por cá, o nevoeiro está tão cerrado, que acabei de desistir de um almoço em boa companhia na nossa serra.)

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