Se vier bem caídinha…

Cresci numa aldeia numa das encostas da Serra de Bornes. A chuva nem sempre caía na altura ou na dose certa. Por ser uma aldeia na serra, lembro-me de grandes trovoadas que deixavam as ruas, ainda sem alcatrão, cheias de regos e rebentavam com os campos, criando neles valas profundas.

Lembro-me do  Sr. Manuel da Coelha, do Ti Zé, do Ti Massimino, do meu pai, do Jaime  e eu próprio, quando atingi o estatuto de homem do fundo da quinta,  pegarmos em  enxadas para, enfrentando a chuva que caía,  tentarmos desviar os cursos de água para minorar os prejuízos.

Mas a chuva nem sempre era má! Lembro-me de ouvir o meu pai assobiar de contentamento, alguns dias ao ver chover. Logo ele que, por ser pastor e ter que levar incondicionalmente os animais para o pasto, iria apanhar com ela no corpo quase de certeza.  Recordo-o nos seus fatos de plástico para a chuva com as  galochas pretas, como se fosse enfrentar uma epidemia ou um surto de um vírus, ou já com o fato pendurado à cintura, quando o sol voltava.

Cada vez que via chover, e antes de a enfrentar, corajosamente dizia apenas: “Desde que venha bem caídinha, deixa-a vir!”

E, hoje, enquanto escrevo, ainda na cama, oiço-a cair, bem caídinha, e gozo este prazer de quem sabe que pode ficar mais um pouco no quentinho ouvindo esta linda melodia que é a chuva bem caídinha, ouvida na cama!

Bom sábado!

Ps. Só é pena, e espero que pare ainda de manhã, que estrague um pouco a Feira Caramela, que hoje montaram cá na terra, que já não é na serra e tem alcatrão em todas as suas ruas!

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