Era uma criança…

Era uma criança, como tantas outras crianças, mas aos sete anos já “servia”.

Não sei o que “servia”, a quem “servia”, nem de que servia o trabalho de uma criança de sete anos.

Fazia travessuras, como todas as crianças de sete anos.

Um dia partiu a chave de uma porta de uma dispensa onde os patrões, os donos da casa onde “servia”, escondiam o pão, numa tábua bem alta, pendurada no teto.

Não procurava bolos, guloseimas ou chocolates. Procurava pão, que fechavam à chave e colocavam bem alto. Tão alto que nenhuma criança de sete anos conseguiria comer, a não ser que, com engenho próprio de uma criança, o conseguisse fazer cair.

Fugiu, ou foi despedida. Atravessou montes, sozinha,  para voltar para casa, numa aldeia vizinha. E depois voltou, acompanhada pela sua mãe que a repreendia, e lhe batia, por fazer asneiras e por quebrar chaves e querer comer o pão que não lhe davam, como se de um grande pecado se tratasse.

Voltou para a casa onde lhe escondiam o pão. Não sei se lhe perdoaram algum dia, os patrões e a sua mãe, pelas travessuras de criança que sempre teve muitos mais obrigações que direitos.

Era uma criança, como tantas outras que ainda hoje sofrem às mãos de adultos e, muitas vezes, dos próprios pais que não o sabem ser.

Era uma criança como tanta outra criança, mas esta chamava-se Josefina e era também  a minha mãe.

Anúncios

Um pensamento sobre “Era uma criança…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s