O homem que guardava cabras e sonhos.

Era um homem simples, que nunca aprendeu a ler.

Era o homem simples que guardava cabras e sonhos na Serra de Bornes.

Ainda tentou largar os animais e emigrou para  França na procura de uma vida melhor que nunca encontrou por lá.

Voltou à sua serra. Comprou um rebanho de animais e passeou com eles, todos os dias, pela serra.

Ser pastor é extremamente desgastante para todos aqueles que não gostem de verdade de animais. Pode até ser agradável na primavera ou num dia ou outro no outono. Mas os animais têm que sair todos os dias, chova ou faça sol, e só quem gosta deles, como ele gostava, consegue vestir um “fato de água” e levar a cabo essa tarefa com um sorriso na cara mesmo nos dias em que não pára de chover.

Claro que eu também tentei levar um dia os animais a pastar. Confesso que não consegui! Não me digam que é fácil, que, como vemos nos filmes, qualquer criança leva os animais a pastar. Eu nunca fui capaz!   Para o meu pai, deixar-me levar os animais sozinhos a pastar equivaleria a emprestar-me um carro de alta cilindrada antes de eu ter carta de condução. Tenho a certeza que seria muito complicado também para ele, e, por isso, se tentamos o exercício não o repetimos e nunca me pediu que fosse eu a levar o rebanho a pastar!

Não é pastor quem quer! Só quem ama os animais consegue ser pastor.

O meu pai foi o melhor pastor que conheci. Nunca foi um  homem de negócio. Como qualquer pessoa boa, era fácil de enganar. Mas comprava um rebanho  magro (e provavelmente caro) e passado algum tempo os animais não pareciam os mesmos e valiam ainda muito mais ou pelo menos não fariam com que perdesse dinheiro.

Invejo a calma com que tratava os animais, como eles o compreendiam. Não era preciso muitas palavras, por vezes bastava um olhar e, invariavelmente faziam o que ele pedia ou apenas pensava.

Quando envelheceu e deixou de ter um rebanho e cães, lembro-me de ter um gato, ou de um gato o ter a ele porque  não sei quem adoptou quem. Penso que simplesmente apareceu um dia lá por casa e foi recebendo comida. Passou a andar com o meu pai para todo o lado, como  se fosse um cão, ou um rebanho! Ia com ele para a horta, para o campo, seguindo todos os seus passos.

Foi o meu pai que, não sabendo ler, me ensinou que podemos ser qualquer coisa na vida. Basta amar aquilo que fazemos, como ele amava ser pastor!

Feliz dia do Pai, espero que onde quer que estejas também haja animais e que te entreguem um rebanho porque sei que, se o fizerem, estarás feliz!

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3 pensamentos sobre “O homem que guardava cabras e sonhos.

  1. Bom dia João! Ao ler seu texto exalando ternura, uma frase sussurrava incessantemente ao meu ouvido: “Honra a teu pai e tua mãe”! Confesso que fiquei emocionado ( por sorte nossa não levou jeito para Pastoreio rsrsrs ). Obrigado por nos presentear com tão bela pintura… um forte abraço! Sandro Ernesto

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      1. Pode ter certeza que sim, mas este texto em especial tocou um mais. Primeiro por amar profundamente meu pai. Segundo porque suas palavras estão carregadas de afeto, respeito, amor… e isto são ingredientes para arrancar algumas lágrimas de mim (e quem disse que homem não chora?! ) Aqui festejamos no segundo domingo de agosto… mas comemoro juntamente com você a partir de hoje! FELIZ DIA DO PAI !!!

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