O preço da vergonha

Se tivesse sido a filha do Trump, talvez nem tivesse sido notícia. Não o seria aqui, no Ninguém lê, certamente. Seria a filha de um presidente de um país onde, misturada com alguma miséria, há produção, universidades, estradas, hospitais. Um país  onde se produz e gera riqueza. O pai é   presidente há menos de um ano, antes disso geria, bem ou mal, as suas empresas e, mesmo que fugisse aos impostos, gerava certamente algum do dinheiro que dá à filha.

Mas não foi. Foi o filho de José Eduardo dos Santos que é presidente de Angola, há mais de 30 anos,  onde não há universidades, estradas nem hospitais. Onde se extraem diamantes e petróleo mas onde grande parte da população continua a viver na miséria.

E por que é que o pai é importante nesta história?

Porque o filho tem 25 anos e não se lhe conhece atividade para ter gerado esse dinheiro em tão pouco tempo.

Ao comprar um relógio por 500 mil euros, Danilo dos Santos, não comprou apenas uma peça de gosto duvidoso para ostentar no pulso. Deu também um preço à vergonha, ou à falta dela. Como se pode gastar num relógio quando se vem de um país onde faltam tantos hospitais? Ao comprar um relógio, em vez de construir um hospital, ou importar medicamentos, está a matar muitas crianças e adultos que nasceram o seu país, talvez a poucos quilómetros do berço de ouro em que ele próprio viu a luz. Sabendo-se que a sua família está no poder há tantos anos, na minha opinião, comprar um relógio por esse valor é um crime, como qualquer outro. Um crime com vítimas, com mortes, um crime pelo qual os responsáveis deveriam responder.

Soubesse a irmã, Isabel dos Santos,  que o seu jovem irmão tinha tanto dinheiro disponível e poderia ter feito o apelo para conseguir  donativos para construção de um hospital pediátrico, que fez nas redes sociais, lá em casa,  à mesa de jantar,  um dia que a família fosse jantar a casa do papá!

Todos sabemos quanto custou o relógio que o dono exibiu, com orgulho, nas redes sociais. Mas não sabemos o preço da vergonha. Quanto precisará de gastar para sentir vergonha de quem é e da futilidade que representa comprar um relógio por 500 mil euros quando no seu país se morre de fome?

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