Ser emigrante…

Deveria saber o que é ser emigrante. Afinal, os meus pais foram-no e eu fui-o também até aos 8 anos. Por França ficaram a minha irmã, os meus tios, os meus primos. Sei o que sofre um emigrante, desde sempre. Sei quanto lhes custa que os tratem por cá de franceses e por lá de portugueses, como se deixassem de ser pessoas e apenas passassem a ser gente que veio ou foi para um país diferente daquele em que nasceu.

Os meus pais nunca tiveram carro, mas  lembro-me das viagens de comboio e de autocarro. Lembro-me de uns sacos enormes que a minha mãe fazia e que trazia de França, com roupa, talheres loiças… Ser emigrante é, ou foi, em muitos casos, apenas um pouco melhor que ser refugiado.  Não fugiram da guerra, fugiram da fome. Sonharam com uma vida melhor para si, para os seus filhos, e partiram para longe. Muitos nunca mais voltaram. Muitos ficaram por lá, por opção. O tempo cura tudo,  até as saudades que podemos ter do país que nos viu nascer. Quiseram ficar junto dos filhos, depois dos netos que já são franceses, luxemburgueses, alemães…

Em criança, habituei-me a vê-los chegar de carro, em agosto, à minha aldeia. Mais do que descanso procuravam as suas raízes. Voltavam, ano após ano, aproveitando todos os dias, todos os minutos disponíveis. Não raras as vezes, saíam sexta-feira, depois de um dia de trabalho, e ficavam até um sábado ou domingo, se tivessem que começar a trabalhar segunda. Não se importavam de arregaçar as mangas e continuar a trabalhar na Aldeia. Ajudavam os pais, que por cá tinham ficado, construíam casas, regavam a horta.

Bem sei que agora vêm de avião e que já nem ficam na aldeia. Vão para as praias, vão descobrir Portugal. Mas, ser emigrante, para mim, continua a ser sinónimo de  pegar no carro e fazer-se à estrada para estar com aqueles de quem se gosta ou, apenas, para estar nos lugares que nos dizem alguma coisa. E, foi por isso, para estar com aqueles de quem gosto, para estar nos lugares onde já fui feliz, que este verão também eu decidi eu voltar a ser emigrante, fazendo a viagem, de carro, mas em sentido  contrário.

Confesso que fiz batota! Fui parando, dormi duas noite num hotel na viagem para França, intercalando os momentos ao volante com os de descanso, num bom colchão, umas boas refeições, para conhecer a gastronomia local, e uns passeios por lugares onde nunca tinha estado. Confesso que a minha família, a minha irmã, os meus sobrinhos, os meus tios e primos já guardam pouco do que eu recordo ser emigrante e, se calhar, ainda bem.

No regresso, no entanto, resolvemos fazer a viagem, de mais de 2000km, em apenas 2 dias. No primeiro dia chegámos a Andorra, onde dormimos. No segundo, partimos por volta das 14:00, depois de fazer umas compras,  e decidimos que, se aguentássemos, continuaríamos e faríamos os 1200km que faltavam de uma assentada, chegando na madrugada do dia seguinte ao Algarve.

Foi só no regresso, já muito perto de Sevilha, de madrugada, quando parámos numa área de serviço espanhola, que me senti verdadeiramente emigrante. Uma área de serviço enorme, que estava aberta 24 horas por dia, e onde famílias inteira de magrebinos, muitas vindas já de França, como nós,  descansavam e tomavam café. Vi adultos, jovens e crianças cansados da viagem mas com alguns quilómetros pela frente. Senti-me emigrante, no meio deles e só então tive a certeza que, mesmo que os nossos prefiram, agora, o avião, continua a haver emigrantes na estrada. Continua a haver famílias inteiras horas a fio dentro de carros sonhando chegar à terra onde nasceram. Param, cansados, para dormir um pouco nos carros, ir à casa de banho, beber café ou água. Estão cansados mas sorriem, vão para casa, para o seu país, encontrar aqueles de quem gostam.

E foi então que as minhas férias fizeram realmente sentido. Não nos podemos esquecer do que é ser emigrante ou refugiado. Também nós já o fomos, também nós poderemos voltar a sê-lo. É melhor não o esquecer!

 

Ps. Na foto sou eu, em frente à escola onde aprendi, pela primeira vez, a ler.

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