Pessoalmente metem-me alguma confusão as calças rotas. Não que não ache a sua graça a um joelho de uma moça bonita que vai espreitando à medida que ela caminha, antes pelo contrário.
Mas habituamo-nos e começamos, pouco a pouco a gostar. Não posso, no entanto, deixar de pensar de onde virá tal moda. Lembrem-se que a tendência já começou há muito, quando, antes de rotas (e agora completamente rasgadas), ainda no séc. XX, se começou a usar a ganga “pré-lavada”. Não se pretendia que parecesse nova, mas sim, embora ainda sem buracos, já bastante usada. Quando me dizem que é mais cara assim, tem toda a lógica que assim seja, alguém tem que a envelhecer e abrir os buracos!
Mas, no fundo, estamos a usar roupa nova, fingindo que é velha, como se a velha fosse melhor que a nova.
E, na verdade, pensei um pouco sobre isso, e penso que talvez até seja. A roupa velha já se moldou ao nosso corpo. Já dura anos sem envelhecer muito mais, ficando sempre com o mesmo aspecto.
Durante bastantes anos passei muitos dos fins de semana de inverno em Porto Covo. Gostava (e gosto) muito dessa pequena aldeia alentejana, de passear a olhar para o mar, principalmente no Inverno, quando o mar está bravo ou até quando cai um pouco de chuva. Quando me lembro dos meus passeios, lembro-me do meu blusão de cabedal velho, que ficava lá para ser usado apenas ao fim de semana. Podia ser molhado à vontade que continuaria sempre a parecer velho, como realmente era. Colava-se ao meu corpo como só um blusão velho pode colar. Gostava dele, porque cada vez que o vestia lembrava lugares onde tínhamos estado juntos, passeios que tínhamos dados e todo o frio e chuva que de que me tinha resguardado.
Penso que se nos habituarmos a gostar das coisas velhas conseguiremos viver melhor. Podemos gostar das coisas que nos acompanham anos a fio, que embora velhas, envelheceram connosco. Não percebo é a razão para querermos fingir que as coisas novas são velhas, em vez de vestirmos com orgulho a roupa que envelhece connosco.
Este fim de semana almocei com duas amigas e com os respetivos maridos. Conhecemo-nos no liceu quando tínhamos a idade que os nossos filhos têm agora.
Não digo que não seja muito bom fazer novos amigos, mesmo aqueles que aparecem quando já são velhos. No entanto, é muito bom conservar alguns por longos anos, e deixá-los envelhecer connosco connosco, e conhecer cada curva do nosso corpo, cada canto da nossa alma!
(*) Imagem de capa encontrada aqui
