Sei (um pouco) o que isso é!

Felizmente, não perdi nenhum familiar direto na tragédia que este ano assolou o nosso país. Felizmente, ninguém que eu conheça perdeu  a vida ou tudo o que tinha nestes incêndios. Mas, infelizmente, sei o que isso é. Não sei o que é perder estupidamente alguém de que se gosta, mas a vida já me ensinou o que é ver arder tudo o que se tem.

No início dos anos 80, deveria ter 11 ou 12 anos, o meu pai era (outra vez) aquilo que sempre gostou de ser: pastor. Tinha passado por uma experiência de pouco mais de uma década de emigração, mas um acidente de trabalho, e uma pensão de miséria atribuída, fizeram com que regressasse ao seu país, comprasse animais e andasse com eles pelo campo, sendo incomparavelmente mais feliz do que em qualquer outro lugar do mundo!

Toda a gente deveria ter uma profissão que amasse como o meu pai gostava de ser pastor. É uma vida dura, não há sábados nem domingos, nem feriados. Todos os dias os animais têm que sair para o campo, chova ou faça sol. Sendo só ele o sustento da família, e não sendo a pastorícia uma atividade muito lucrativa, tinha ainda que plantar tudo o que era preciso para nos sustentar. Batata, feijão, nabal, tomate, alface, etc… Isto era feito de madrugada, antes de sair com os animais.

Nunca conheci ninguém tão trabalhador, mas não era na horta que se sentia bem, o mundo dele eram os animais.

Uma manhã acordamos com a “corriça” onde guardava os animais em chamas. Por cima dos animais havia palha. Nas portas de chapa ficaram as marcas dos seus cornos e do seu desespero. Morreram  todas carbonizadas. O outro pastor da aldeia, não conseguia que os seus animais andassem gordos e bem tratados como os do meu pai. Era novo e tenho a certeza que não gostava do que fazia, como o meu pai sempre gostou e os animais percebem isso. Num momento de raiva tentou queimar ambos os rebanhos, conseguindo apenas que ardessem as do meu pai, uma vez que as suas não tinham palha por cima.

Lembro-me de ver o meu pai chorar. Lembro-me de o ver enterrar o que sobrou dos animais. Foi graças à ajuda da minha irmã mais velha que conseguiu comprar outros animais e reconstruir o palheiro onde as guardava.

O autor do crime foi preso e, mais de uma década depois, veio pedir-lhe perdão, os trocos que trazia no bolso. O meu pai perdoou ao sobrinho, que nunca chegou a pagar (porque nunca chegou a ter) o que o tribunal ordenou que pagasse ao meu pai.

Portanto, sei o que é perder tudo num fogo. Sei que um homem pode chorar por ver em minutos destruído o trabalho de uma vida. Sei que há criminosos que pelas mais diversas razões destroem  a propriedade alheia.

Infelizmente, sei o que isso é. Ou sei apenas a parte que diz respeito a perdermos animais, a perdemos bens, a perdermos tudo o que temos. Não sei, felizmente, o que é perder um familiar numa situação destas. Mas sei que, se em média cada uma das pessoas que faleceram tiverem 5 ou 6 familiares diretos, pelo menos 500 ou 600 pessoas estão a passar, este ano, por momentos terríveis.

E é com eles que está o meu pensamento, esperando que recuperem e que um dia consigam escrever sobre isso, como eu hoje, quase 40 anos depois, consigo escrever sobre o que aconteceu ao meu pai. A esta hora imagino-o a guardar animais no paraíso, se por lá houver ovelhas ou cabras, porque tenho a certeza que melhor pastor não encontrarão por lá!

 

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