A faca

No domingo estive em Covelas, com a Judite. Reparei que já partiste há 21 anos. Também reparei no dia em que partiste, mas  tentarei, mais uma vez, esquecer para não pensar nisso, quando chegar a primavera. Como pode ter passado tanto tempo e ainda me lembrar do teu cheiro, dos teus beijos, da tua generosidade infinita? Parece que partiste ontem, sinto-te comigo muitas vezes e isso dá-me paz.

Trouxe, da gaveta da cozinha, duas facas, muito gastas. Tenho a certeza que com elas descascaste muitas das batatas que comi enquanto cresci, que foste com elas ao chão buscar nabal, que cortaste com elas a rama à cebola. Também trouxe marmelos do marmeleiro do chão. Ontem fiz marmelada, infelizmente sozinho! (vês, também gosto de mandar umas piadas, como tu!).

Agora pingo uma lágrima sobre o teclado, tenho que guardar a cebola mais longe. Mas estou bem. Penso em ti e fico bem.

Estivemos com o Jaime e com a Lúcia que nos deram todas as castanhas que já tinham apanhado este ano. Não queríamos, mas insistiram e (re)vi-te, na Lúcia, oferecendo aquilo que tinhas aqueles que nos visitavam. Lembro-me como o primo Zé gostava do teu pão de centeio e como te gabavam sempre os queijos. Como levavam as abóboras que secavam nas escadas do palheiro ou a fruta colhida no chão. Aceitei, porque sei o prazer que dá dar aquilo que temos e como pode ser tão ou mais gratificante que receber. Gosto da Lúcia e do Jaime, devias ter ficado mais estes 20 anos por lá com eles!

Também estivemos em casa do Ti Maximino e da Dona Lucinda, com quem falamos um bom bocado e de onde trouxemos mais algumas castanhas, escolhendo apenas as graúdas, porque este ano não cresceram e para os amigos só escolhemos o melhor. Também nos deu fruta e bebemos uma cerveja juntos, falando do tempo em que festejávamos o carnaval! Falar com eles, voltar a Covelas fez-me bem, como sempre.

Não preciso da faca para me lembrar de ti, todos os dias. Mas gosto de facas e gosto de sentir estas na mão, sabendo que estiveram tantas vezes nas tuas.

Um beijo,

Amo-te,
como sempre te amei
e amar-te-ei sempre.

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5 pensamentos sobre “A faca

  1. Boa noite.

    Tomei contacto com este texto através de uma amiga comum, a Judite Lopes.
    Texto lindo, cheio de ternura apaziguadora.
    Perdi a minha mãe há dois anos e oito meses e é exatamente assim que me sinto: preenchida quando penso nela; ativa quando penso nela; feliz quando penso nela.
    Uma presença forte e pacificadora dos meus dias…
    Amo-a tanto, tanto…
    obrigada por partilhar pensamentos tão bonitos

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